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terça-feira, 10 de maio de 2011

RACIONALISMO CARTESIANO

O ceticismo do Renascimento, representado aqui por nós na figura de M. Montaigne, fundamentou e deixou claro a decadência da razão. Aliás, na história da filosofia são sucessivos os momentos de ascenção, apogeu e consequentemente decadência da razão. A filosofia é por excelência, um estudo dos movimentos de ascenção, apogeu e decadência da razão humana.

A razão aparece como a faculdade mais precisa do homem. Sua origem, sua evolução e seu destino enfim, sua sobrevivência estão ligados íntimamente a ela. Esse zelo pela razão será a pedra de toque do racionalismo que iniciou seu programa com a figura de Descartes.

No renascimento a razão era descrita como sendo responsável ou melhor, como a faculdade humana responsável pela descoberta e manifestação da ordem divina do mundo. Para Descartes, entretanto, como sendo um dos primeiros racionalistas a apresentar o seu programa, a razão era responsável pela produção e estabelecimento da ordem dos conhecimentos e das ações dos homens. Portanto, em Descartes, a razão é uma faculdade humana e não divina. Deus não interfere na razão, pois esta, em grande parte, depende exclusivamente, de REGRAS.

Ai está pois, a diferença principal entre Descartes e o pensamento renascentista. Veremos, no entanto, que as sequêlas da filosofia renascentista aparecem vivamente na filosofia racionalista de Descartes. Essa parte de nosso estudo constará de duas etapas. A primeira enfocará a concepção cientiífica de Descartes; a segunda objetivará explicitar a concepção metafisica de Descartes.

1.1.1 Descartes e a ciência

O conceito dominante não só no racionalismo mas também em Descartes é o conceito de SUBSTÂNCIA. Mas por que o conceito de substância advindo de Aristóteles colocou-se como o centro do programa racionalista do séc XVI? Ora, assim como Aristóteles distingue em sua lógica o Sujeito do Predicado, o mesmo ele efetua em sua metafísica diferenciando Substância de Atributo.

Neste sentido, quando pronunciamos a seguinte sentença: "Pedro é um homem", temos que "Pedro" será o sujeito da sentença e, o restante "um homem" será o predicado. Ora, enfocando esta mesma sentença teremos que o termo "Pedro" é a Substância, a essência, e o complemento "um homem" é o seu atributo. Sendo assim, a substância possui e é uma essência, e os seus atributos são acidentes, isto é, propriedades com relação às quais a substância pode mudar sem deixar de existir. A essência é justamente a parte da substância que não muda e não deixa de existir. Em uma palavra a substância em essência é o que permanece.

Este conceito de Substância assume importância vital porque essa contém em si a explicação total ou completa da natureza. A dificuldade residirá em que a IDÉIA DE MATÉRIA dificilmente se enquadrará na estrutura conceitual de SUBSTÂNCIA, em Aristóteles. Estabelecer essa relação entre a idéia de MATÉRIA e o conceito de substância, se é possível ou não, será o centro de polêmicas no racionalismo moderno e, principalmente em Descartes.

Diz Descartes: "Pois, com efeito, aquelas que me representam SUBSTÂNCIAS são, sem dúvida, algo mais e contém em si (por assim falar) mais realidade objetiva, isto é, participam, por representação, num maior número de graus de ser ou de perfeição do que aquelas que representam apenas modos ou acidentes" (Meditações, 103)

Como Descartes opera para estabelecer ou restabelecer a relação entre a IDÉIA de MATÉRIA e a de Substância? Descartes estabelece uma diferença entre Substância pensante e Substância extensa:

"Pois, quando penso que a pedra é uma substância, ou uma coisa que é por si capaz de existir, e em seguida que sou uma substância, embora eu conceba de fato que sou UMA COISA PENSANTE E NÃO EXTENSA, e que a pedra, ao contrário, é UMA COISA EXTENSA E NÃO PENSANTE, e que assim, entre essas duas concepções há uma notável diferença, elas parecem, todavia, concordar na medida em que representam substâncias." (Meditações, 107)

Ora, enquanto que a substância pensante aqui em nosso estudo será melhor explicitada na segunda parte que trata da METAFÍSICA, a substância extensa será tratada neste momento. A razão disso é que a extensão é a categoria fundamental, em Descartes, para entender-se a concepção de UNIVERSO.

A filosofia de Descartes se compõem, básicamente, de três momentos: 1º O da dúvida metódica (que corresponderia a 1ª e 2ª MEDITAÇÃOES); 2º O da inserção do cógito (que corresponderia a 2ª e 3ª MEDITAÇÕES); e 3º O da saída do cógito (que corresponde a 3ª,4ª,5ª e 6ª MEDITAÇÕES). Portanto, o cerne da filosofia cartesiana é a dificuldade que há em sair-se do cógito para admitir que existe algo fora dele, isto é, se há uma realidade exterior ao cógito.

Descrever a concepção de Universo (ou de ciência) em Descartes é justamente deter-se neste terceiro momento, que pode ser sintetizado neste esquema:

IDÉIA »»»»»»»»»»»»»»»»» OBJETO

Isto é, como ocorre a passagem de uma idéia localizada no interior do cógito para um objeto localizado fora do cógito? Em termos Cartesianos:

SUBSTÂNCIA PENSANTE »»»»»»»»»»»»»»»» SUBSTÂNCIA EXTENSA

Isto é, como ocorre a passagem de substância pensante para a substância extensa? Como Descartes reconhece a existência do mundo exterior? Vejamos em Descartes:

"Tomemos, por exemplo, este PEDAÇO DE CERA que acaba de ser tirado da colmeia (...) todas as coisas que podem distintamente fazer conhecer um corpo encontram-se neste (...) Mas eis que, enquanto falo, é aproximado do fogo (...) A mesma cera permanece após essa modificação? Cumpre confessar que permanece : e ninguém o pode negar, (...) Consideramo-lo atentamente e, afastando todas as coisas que não pertencem à cera, vejamos O QUE RESTA. Certamente, nada permanece SENÃO ALGO DE EXTENSO, flexível e mutável (...) E agora, que é essa extensão? (...)" (Meditações, 96)

Ora, chegamos a idéia de extensão por intuição da mente. Mas, o que significa extensão? Extensão, em Descartes, significa "SER CHEIO DE MATÉRIA". Portanto, é uma contradição sustentar a extensão como algo desprovido de toda matéria. A matéria possui extensão e movimento. E a razão concebe a extensão pelo método geométrico.

Aqui que começa-se a explicar a passagem que vai do interior do cógito para o seu exterior. Isso ocorre graças ao método geométrico de Descartes. Ora, se eu me constituo como uma substância finita, como posso ter a idéia de um ser infinito em mim? Logo, esse ser infinito está fora de mim. Diz neste sentido Descartes:

"Portanto, resta tão somente a idéia de Deus, na qual é preciso considerar se há algo que não possa ter provindo de mim mesmo? Pelo nome de Deus entendo uma substância infinita, eterna, imutável (...)

(...) ainda que a idéia de substância esteja em mim, pelo próprio fato de ser eu uma substância, EU NÃO TERIA, todavia, a IDÉIA DE UMA SUBSTÂNCIA INFINITA, EU QUE SOU UM SER FINITO, se ela não tivesse sido colocada em mimpor alguma substância que fosse verdadeiramente infinita" (Meditações,107-8)

O infinito não pode estar contido no finito, mas o finito (homem) pode estar contido no infinito (Deus). Logo, o infinito está fora do finito, existe fora do finito. Deve haver uma realidade exterior ao cógito.

O Universo físico será um mecanismo criado por Deus, que pode ser reduzido ao cálculo. O Universo é um relógio preciso. A precisão desse relógio se explica pelo movimento das partes extensas. Esse princípio, e assim acreditou Descartes, explica todos os fenômenos da natureza. Deus é a causa primeira desse mecanismo e as leis da física dele são deduzidas.

Neste sentido, temos em Descartes a primeira lei da natureza: O PRINCÍPIO DE INÉRCIA. O que significa este princípio? Todas as coisas, que compõem a realidade exterior do cógito, enquanto simples e indivisas preservam-se sempre no mesmo estado e não se alteram, não mudam a não ser que uma causa externa os ponha em movimento. A segunda lei: todas as coisas tendem a movimentar-se em linha reta. E a terceira lei, conhecida como a lei ou o princípio da conservação do movimento, diz que no choque de dois corpos entre si, o movimento não se perde, mantendo-se a sua quantidade constante.

Destas leis é que Descartes deduz toda estrutura do Universo e aponta para o fato de que todos os fenômenos desse Universo, dessa natureza possam, por essas leis, serem REDUZIDOS.

Neste sentido, o Universo atual, a ordem atual do mundo se formou a partir do caos. "A matéria primitiva era composta de particulas iguais em grandeza e em movimento; estas particulas moviam-se quer, em torno do próprio centro quer uma em relação as outras, de modo a formarem turbilhões fluidos que, compondo-se de modos vários entre si, deram origem ao sistema e depois à terra". (HF,59-60)

Esse Universo mecânico, esse Universo máquina transfere esssasua característica aos seus componentes. Dessa forma, Descartes, fala de um mecanismo não só para o Universo mas também para aquilo que nele está contido: Homens, Plantas e Animais. A comprovação de Descartes que o homem é uma máquina dentro da grande mecânica do Universo, está no circulação do sangue. Mas a descrição de Descartes a respeito da circulação do sangue não parece concordar muito com a de Harvey - descobridor do trajeto da corrente sanguinea. Enquanto que Descartes atribui à circulação sanguinea, em causa, a maior quantidade de calor que existe no coração, Harvey (1628) indicava como sua causa a contração e distenção do músculo cardíaco.

Cabe por último salientar que, toda matéria existente no Universo, na concepção Cartesiana, foi posta em movimento uma vez por todas, ao mesmo tempo e, o papel de Deus é que esse movimento seja perpétuamente conservado.

Em conclusão, dir-se-ia que Descartes "queria alcançar uma concepção de mundo que fosse, num sentido totalmente específico, objetiva, isto é, quera mostrar que, independentemente de seus pensamentos e percepções, existe um mundo que poderia, a qualquer momento, diferir do que parece ser para ele, do qual ele fosse apenas uma parte finita e falível e cuja verdadeira natureza ele só pudesse descobrir mediante laboriosa investigação" (IFM, 39).

1.1.2 Descartes e a Metafísica

Anteriormente tentamos esclarecer a concepção de substância extensa em Descartes como sendo a pedra de toque para a sua concepção cosmológica da ciência. Vimos que todo universo composto de matéria possui sua autêntica natureza em Deus e dele se deduz as leis da física de maneira geométrica, sendo que todas idéias daí derivadas são por assim dizer, para Descartes, claras e distintas.

Agora partiremos para o estabelecimento da substância pensante que, por sua vez, é a pedra de toque da metafísica de Descartes.

Descartes inicia todo seu filosofar pela dúvida, pela dúvida orientada ou direcionada pelo método, enfim, pela DUVIDA METÓDICA. Diz Descartes que o seu propósito é:

"(...) desfazer-me de todas opiniões a que até então dera crédito, e começar tudo novamente desde os fundamentos, se quisesse estabelecer algo de firme e de constante nas ciências (...).

Ora, não será necessário, para alcançar esse desígnio, provar que todas elas são falsas, o que talvez nunca levasse a cabo (...) o menor motivo de dúvida que eu nelas encontrar bastará para me levar a rejeitar todas." (Meditações, 85)

A atitude de Descartes tinha sua razão de ser. O Renascimento deixará para a filosofia uma situação bastante incômoda: todo nosso conhecimento não possui nenhuma estrutura segura. Tudo que afirmamos, mais cedo ou mais tarde, aparecem contrários à nossa razão. A atitude de Descartes, em princípio, é a de um cético que suspende todos os seus juízos e coloca-os em cheque. Porém, sua meta é bastante racional: estabelecer princípios seguros e absolutos para a razão. Esses princípios seriam norteadores de todo o conhecimento objetivo. A objetividade da razão é em Descartes algo determinado e determinador, reflexo da certeza e da segurança que todo conhecimento que se diga científico, deveria ter. As idéias claras e distintas advém deste conceito de objetividade.

Desta atitude cartesiana perante a razão, provém o problema fundamental da teoria do conhecimento: como posso EU conhecer ou ter certeza das coisas que afirmo conhecer? Se trata aqui de se estabelecer o conhecimento humano como uma árvore que, tem a física como tronco e a metafísica como raiz.

Ora, apartir deste problema do conhecimento, faz com que Descartes, de sua dúvida metódica se volte para dentro de si mesmo. Mas todo este procedimento é coordenado pela razão. Portanto, haverá, por assim dizer, um método de valor universal para que tudo se desenrole do jeito que está se desenrolando. É sobre este método que queremos dizer alguma coisa a partir de agora.

O método de Descartes justifica, sobretudo, a sua atitude de interiorização, de recolhimento em si mesmo e, por conseguinte, sua abertura para a realidade exterior. Sendo assim, Descartes define como Método o conjunto de

"regras certas e fáceis que, por quem quer que sejam exatamente observadas, lhe tornam impossível tomar o falso pelo verdadeiro e, sem nenhum esforço mental inútil, antes aumentando sempre gradualmente a ciência, o conduzirão ao conhecimento de tudo o que ele será capaz de conhecer" (Discurso do Método). Esse aumento gradual de que fala Descartes em sua definição de Método, espelha sua atitude de contela e desconfiança para, por fim, alcançar a certeza incontestável.

Pois bem, quatro são as regras de direção do espírito metódico: a) a regra da evidência

b) a regra da análise

c) a regra da síntese

d) a regra da enumeração

Vejamos pois, cada uma: pela regra da evidência Descartes procura estabelecer que jamais podemos aceitar algo como verdadeiro se não pudessemos reconhecê-lo como evidente. Reconhecer como evidente é reconhecer segundo a luz natural da razão, é reconhecê-lo pela INTUIÇÃO, chave de toda boa razão. Oposta a noção de evidência é a de conjectura, que é em Descartes, aquilo que não nos dá a verdade de modo IMEDIATO ao espírito, mas tal verdade é MEDIADA por outras circunstâncias para alcançar o espírito. Daí se deduz que a evidência é aquilo que se dá imediatamente ao espírito, sem a interferência de outros fatores. O conceito, por assim dizer, se torna cristalino, transparente para a razão. Daí se deriva a CLAREZA enquanto tal. A DISTINÇÃO é um outro momento que consiste na separação do conceito imediatamente captado de outros conceitos adjacentes. A distinção é um processo de discernimento de conceitos ou idéias e a clareza é propriamente dita como a apresentação da idéia para a mente. Diz Descartes a respeito desta primeira regra:

"O primeiro era o de jamais acolher alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse EVIDENTEMENTE como tal; isto é, de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção, e de nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e distintamente a meu espírito, que não tivesse nenhuma ocasião de pô-lo em dúvida." (DM,37)

Em segundo lugar, pela regra da análise temos um processo que consiste em dividir cada uma de nossas dificuldades, segmentando nosso problema central no maior número possível e necessário de partes para poder chegar a uma conclusão.

"A análise designa aqui o método que consiste em supor conhecida a linha desconhecida, em estabelecer as relações que a ligam a grandezas conhecidas, até que se possa constituí-la a partir destas relações." (DM, nota 20)

Segundo Descartes a etapa da análise pode ser definida como "... o de dividir (no sentido de decompor até os elementos mais simples cuja combinação engendrará a solução) cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas PARCELAS quantas possíveis e quantas necessárias fossem para melhor resolvê-las" (DM, 37-8)

Em terceiro lugar, temos o momento da síntese que envolve um reagrupamento das idéias analisadas em uma nova ordem . Descartes assim fala sobre essa terceira etapa do seu método geométrico:

"O terceiro, o de conduzir por ORDEM os meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir, pouco a pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos, e supondo mesmo uma ordem entre os que não se precedem naturalmente uns aos outros." (DM, 38)

Em quarto lugar, temos a etapa da enumeração, que, segundo Descartes, pode ser assim definida:

"E o último, o de fazer em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais, que eu tivesse a certeza de nada omitir".(DM,38)

Em conclusão: com este método geométrico Descartes racionaliza a sua dúvida metódica, diferente dos céticos que a sua dúvida e encerteza é motivo de suspensão do juízo, pois constatam que a razão lhe escapa.

A dúvida metódica faz com que Descartes se recolha em si mesmo. É o momento do "cógito, ergo sum". A segurança e a certeza não está fora de mim, portanto, devo procurar em meu interior. Está na hora de definir, em oposição a RÉS EXTENSA, A RÉS CÓGITA, isto é, a substância pensante, como centro da metafísica de Descartes.

Pois bem, por substância, como já sabemos, entendemos aquilo que existe independentemente de qualquer outra coisa. Ora, a substância pensante se impõem na medida em que, uma vez efetuada a dúvida metódica, ocorre a constatação: se estou duvidando de tudo, uma coisa porém não posso duvidar, a de que estou PENSANDO, porque para duvidar eu tenho que pensar. Por acaso poderia existir alguém que duvidasse de tudo e até mesmo que estivesse a pensar? Seria contraditório. Se cumpre em Descartes o princípio da lógica que diz: posso pensar em tudo quizer, desde que, não entre em contradição comigo mesmo.

Dessa forma, Descartes introduz na teoria do conhecimento o sujeito pensante: a epistemologia do sujeito cognoscente.

"A teoria do conhecimento subjetivo é muito antiga: mas torna-se explícita com Descartes: "Conhecer" é uma atividade e pressupõe A EXISTÊNCIA DE UM SUJEITO CONHECEDOR. É o ser subjetivo quem conhece." (CO,77)

Vimos que a proposição Penso, logo existo (ou até mesmo, Duvido de tudo, logo existo) é a única proposição absolutamente VERDADEIRA porque a própria dúvida a confirma. Ora, devemos distinguir aqui, na filosofia cartesiana, as verdades necessárias das verdades contingentes. A verdade necessária é aquela que pode ser conhecida pela luz natural da razão, pela evidência, pela intuição. A verdade necessária, portanto, nunca será falsa. Ao contrário, a verdade contingente pode (possibilidade) ser falsa. Portanto, não é que necessariamente seja FALSA. Porém, somente as verdades necessárias estarão vinculadas ao cógito, a substância pensante, enquanto que as verdades contingentes estão representadas pela realidade exterior ao cógito. O que leva Descartes de dentro do cógito para a realidade exterior, é a noção de Deus. Temos assim,

Mas se as verdades do cógito são necessárias por que Descartes tinha que voltar-se para fora do cógito? Descartes precisa abandonar o solipcismo e demonstrar geométricamente a existência da realidade exterior. Já tivemos alguma idéia de como ele o faz, mas vejamos:

O ponto central da obra de Descartes é a sua explicação da passagem do cógito (substância pensante) para a realidade exterior (substância extensa). Essa passagem ocorre pelo fato de que EXISTE DEUS. Mas como Descartes prova a existência de Deus? Aqui Descartes é pouco original. Descartes se volta para os Escolásticos. Especificamente falando, é em Santo Anselmo de Aosta que Descartes encontrará a prova ontológica da existência de Deus. Qual é esse argumento ontológico da existência de Deus?

Ora, segundo Anselmo, não é possível conceber um triângulo que não tenha ângulos internos iguais a dois retos, logo, também não é possível conceber Deus como não existente. Essa é exatamente a lógica de Descartes! Como pode ser que o ser soberanamente perfeito possa ser privado daquela perfeição que é a EXISTÊNCIA? A existência está para Deus assim como a propriedade do triângulo está para o triângulo.

Perante essa situação dirá Pascal, o Deus de Descartes não tem nada a ver com o Deus de Abraão, de Isaac, de Jacob, com o Deus Cristão; é, simplesmente autor de verdades geométricas e da ordem do mundo. (Pensamento, 556) Pascal acha isso lastimável. Descartes dizia é bom que seja assim!

Garantida a existência de Deus, Descartes pode provar agora a existência da realidade exterior ao cógito. E, isso ele o faz, como vimos, aplicando novamente o seu método geométrico.

"Ainda que a idéia de substância esteja em mim, pelo fato mesmo de que sou substância, não poderia ter a idéia de uma substância infinita, posto que sou finito, se ela não procedesse de outra substância, realmente infinita." (MED.III)

O método geométrico é importantíssimo neste momento porque senão poder-se-ia simplesmente dizer que Deus é produto direto do Cógito (da substância pensante). O resultado seria que Descartes não conseguiria sair do Cógito. Morreria no solipcismo!

Portanto, assim como não é possível que algo infinito esteja contido no que é finito, assim também EU (substância pensante) e finito não posso conter Deus em mim, pois ele é infinito.

Mas se Deus estabelece o vículo entre EU e o mundo exterior, como poderia eu saber que ele não está me enganando? Diz Descartes:

"Pois, primeiramente, reconheço que é impossível que ele me engane jamais, posto que em toda fraude e embuste se encontra algum modo de imperfeição . E, conquanto pareça que poder enganar seja um sinal de sutileza ou de poder, todavia querer enganar testemunha indubitavelmente fraqueza ou malícia. E, portanto, isso não se pode encontrar em Deus." (MED. IV, 115)

Ora, se por um lado, Deus não me engana porque ele é perfeito e, seria uma imperfeição dele querer enganar-me, por outro lado, não estaria EU me enganando em relação a Deus?

Se devo reconhecer que eu sou sujeito ao erro e, que, o erro é um juízo falso com conhecimento, mais do que isso, o erro é "uma privação de algum conhecimento que parece que eu deveria possuir" (MED. IV, 116). Uma privação que significa não ter acesso ao conhecimento, não estaria EU me enganando em relação a Deus?

Eu erro porque a minha VONTADE é infinita e minha razão finita. Portanto, sempre terei uma tendência a generalizar demasiadamente os meus juizos. Evitarei o erro quando "todas as vezes em que retenho minha vontade nos limites de meu conhecimento, que ela não julga senão das coisas que lhe são clara e distintamente representadas pelo entendimento, não é possível enganar-me." O Erro é produto do fato de que Deus não me deu o poder infinito de discernir o verdadeiro do falso. Parece que Descartes não consegue responder a questão acima... Se Deus aparece como uma figura que me arranca o cógito e me transporta para a realidade externa, não poderia EU estar enganado em relação a Deus? Ele não me engana, mas eu posso estar enganado em relação a ele. Ora, como preciso dele para sair do cógito e admitir a realidade exterior, logo, preciso ter clara e distintamente certo a idéia de que eu não esteja me enganando quanto a sua natureza. Isso não fica "Claro e distinto" em Descartes. O fato de desculpar Deus do mal existente em mim, não responde a problemática exposta.

Toda essa problemática gera em torno de explicar a vinculação substância pensante e substância extensa. O problema alcança dimensões extremadas quando Descartes precisa responder sobre a INTERAÇÃO entre corpo e alma. Em primeiro lugar é preciso separar que o corpo é distinto da alma por duas razões que se encontram nos parágrafos 17 e 18 da MEDITAÇÃO VI .

A primeira razão da distinção entre corpo e alma se encontra no fato de que EU sou uma substância pensante e inextensa e que todo corpo é uma substância extensa e não pensante, e que a minha alma PODE existir sem o meu corpo. Em segundo lugar, as faculdades como as de imaginar e sentir são próprias da ALMA, não podem ser concebidas sem EU, não estão situadas portanto, no corpo.

Nos paragrafos de 21 a 29 da MEDITAÇÃO VI Descartes procura, sem descanso, justificar aquilo que se chamaria uma inter-relação entre corpo e alma. É aqui que reside o problema:

"Mas a resposta cartesiana levanta o enorme problema de como explicar a inter-relação destas entidades diversas. Se cada uma existe em independência absoluta com relação à outra, como os movimentos das coisas dotadas de extensão produzem sensações distituídas de extensão e como ocorre que as concepções claras ou as categorias da mente distituídas de extensão sejam válidas perante a RES EXTENSA?" (BMCM, 96) Mais enfaticamente:

"Como é que o que não tem extensão pode conhecer um universo dotado de extensão e, conhecendo-o alcançar propósitos nele?" (BMCM, 96)

Descartes se vê em dificuldades de responder a essa questão porque o seu interesse não é mais TELEOLÓGICO (procura o porquê das coisas), mas o seu interesse é o de responder COMO ocorre que a matéria extensa está em relação com o pensamento ou a mente não-extensa. Deus que será o elo de ligação entre a mente e corpo, aparece não como uma resposta final, mas como uma resposta presente, do momento. Deus não é o porquê,mas sim o COMO da ligação entre substância pensante e substância extensa, entre corpo e alma. Essa é a diferença entre Descartes e o pensamento escolástico.

Mas, Deus existe? Descartes tenta mostrar que sim. Há duas provas distintas: uma ontológica e outra cosmológica. O argumento cosmológico é o seguinte: Se sou um ser IMPERFEITO porque eu erro, então, como posso ter a idéia de um SER PERFEITO em mim? Não é possível que a PERFEIÇÃO esteja contida na imperfeição. Portanto, a perfeição só pode ter sido causada, colocada em mim pelo próprio ser perfeito. Deus existe.

A prova ontológica é a seguinte: Se podemos enumerar todas as perfeições do ser perfeito - isto é, apontar sua essência - logo, todas essas perfeições indicarão a existência desse ser perfeito. Deus existe. A existência está contida na essência.

Em conclusão: a resposta de Descartes é insuficiente. "A concepção cartesiana do espírito tem-se afigurado óbvia e irresistível aos filósofos ao longo dos séculos. Caricaturada por G. Ryle em THE CONCEPT OF MIND (1949) como a concepção do "FANTASMA DA MÁQUINA", ela representa uma ilusão profunda, produzida pela quase totalidade do pensamento epistemológico." (IFM, 44) Essa visão é derivada da oposição que Hobbes fez a Descartes.

Hobbes se opõe duramente ao dualismo cartesiano, encarando-o como injustificável. Como Hobbes se opõe a Descartes? Ora, para Hobbes toda atividade e todo movimento constitui-se em MOVIMENTO. O pensamento é uma atividade em todas suas formas (dedutivo ou indutivo) e, o pensamento é um movimento em um organismo animal. Neste sentido, não há diferença entre substância extensa e substância pensante. E o método geométrico é, para Hobbes, a "ciência do movimento simples", a própria geometria é uma mecânica.

Quanto ao vínculo entre substância extensa e substância pensante que em Descartes é Deus, responde Hobbes: uma idéia é sempre uma imagem. Uma imagem faz sempre referência a corpos. Ora, Deus não é um corpo. Portanto, não fazemos imagem nenhuma dele. Não temos idéia alguma do que seja Deus. Queremos muitas vezes conceber o inconcebível. Deus é produto de uma pesquisa racional efetuada pelo homem. Esse objeto Deus é apenas uma explicação da causa primeira das coisas. Deus é um NOME que damos para aquelas coisas que carecem de explicação empírica, assim como um triângulo é um NOME dado a uma determinada forma observada na natureza. Os nomes existem em função dos objetos. Processos mentais são atividades e, atividades são movimentos. Movimentos só ocorrem em corpos. Logo, não existem "substâncias extensas", como queria Descartes. Esse raciocínio é justamente assumido por materialistas como G.Ryle.

EMPIRISMO DE D. HUME

A filosofia de Hume, tal como as demais filosofias empiristas e racionalistas, se acomoda perfeitamente a problemática até aqui discutida. A problemática gira em torno da relação entre a realidade interna (mente) e a realidade externa (natureza). Com Hume, essa problemática desloca-se para o ceticismo. Vejamos como isso ocorre.

Tal como Locke que nos fala de uma realidade interna (reflexão) e da realidade externa (sensação), Hume atribui à realidade interna a indicação própria de "relação entre idéias" e, para a realidade externa a de "questões de fato". Portanto, em Hume, se envolver com a problemática acima descrita é perguntar pelas questões de fato.

Senão vejamos, segundo Hume, todas as percepções da mente pertencem a dois patamares distintos: às idéias e às impressões. As percepções se distinguem pela VIVACIDADE que possuem. As impressões são as percepções mais vivazes. As idéias são menos vivazes devido ao fato de que idéias são cópias de impressões. As cópias são sempre imperfeitas. As cópias das cópias, além de serem imperfeitas, são obscuras e confusas. As cópias das cópias seriam as idéias abstratas de Locke que Berkeley já tinha criticado e, que Hume também não aceita. Diz David Hume em sua INVESTIGAÇÃO (1748).

"E as impressões distinguem-se das idéias, que são as impressões menos vivazes das quais temos consciência quando refletimos sobre qualquer dessas sensações ou movimentos acima mencionados." (IEH, paragrafo 12)

Os movimentos que Hume fala são de sentir, amar, odiar, desejar ou querer que em si mesmos são percepções mais vivazes, mas que, no entanto, se refletirmos sobre tais movimentos obteremos idéias ou cópias dessas impressões.

Agora podemos distinguir os dois momentos fundamentais da filosofia humeniana: em primeiro lugar, a realidade externa. A passagem da impressão para a idéia. Em segundo lugar, a realidade interna. A passagem da idéia para outra idéia. Teremos assim:

1º Momento: Realidade Externa (Questões de Fato)

Impressão X »»»»»»»»» Idéia Y

2º Momento: Realidade Interna (Relação de Idéias)

Idéia X »»»»»»»»»»» Idéia Y

Segundo Hume, "todas as nossas idéias ou percepções mais fracas são cópias de nossas impressões, ou percepções mais vivas." (IEH, paragrafo 13) Portanto, toda idéia deve necessariamente ter seu correlato em uma impressão. A questão essencial sobre a realidade externa (questões de fato) será a seguinte: DE QUE IMPRESSÃO DERIVA TAL IDÉIA?

Questão mais simples, mas que mantém estreita relação com o que foi acima exposto, é a relação entre idéias (realidade interior). Para Hume, passamos de uma idéia para outra mediante a ASSOCIAÇÃO, isto é, pela associação de idéias Hume enumera três princípios de associação de idéias: (a) semelhança; (b) contiguidade de tempo e espaço; (c) causa e efeito.

O problema de Hume é a natureza das questões de fato. Ora, se as questões de fato se fundamentam na relação de causa e efeito, na medida em que "... supomos constantemente que existe uma conexão entre o fato presente e o que dele inferimos" (IEH, paragrafo 22), transportamos a questão para a natureza de nossas relações de causa e efeito. Como chegamos ao conhecimento dessa relação de causa e efeito? Segundo Hume, alcançamos a relação, de causa e efeito pela experiência. Portanto, em última instância, a realidade exterior deriva-se da experiência. As questões de fato derivam da experiência. Mas Hume vai adiante em sua INVESTIGAÇÃO e pergunta-se: qual é o fundamento de nossa experiência? Os empiristas até aqui, não tinham, em momento algum, se perguntado sobre aquilo que fundamentava a realidade exterior. Até aqui tinham descrito processos de como atingimos o conhecimento das coisas que estão fora de nós. Isso é claro em Locke, por exemplo. O que era DADO para o empirismo, o que era "percepção imediata", agora é questionado.

Até aqui Hume é sistemático e racional. Seu irracionalismo é marcado pela seguinte passagem: "Digo, pois, que, mesmo depois de termos experiência das operações de causa e efeito, as conclusões que tiramos dessa experiência NÃO são fundadas no raciocínio ou em qualquer processo do entendimento. Devemos agora esforçar-nos por explicar e defender essa resposta." (IEH, paragrafo 28). A natureza somente mostra sua face superficial, a face superficial dos objetos, quando avançamos e perguntamos pelos princípios que permitem nós conhecermos os objetos, a natureza se fecha em si mesma. Oculta-nos tudo.

Há uma uniformidade na natureza, mas qual é o princípio responsável por essa uniformidade? É o princípio de causalidade (causa e efeito). Mas qual é o fundamento do princípio da causalidade? A experiência. Qual é a natureza da experiência? Não há maneira racional de explicar essa natureza.

Os objetos da natureza estão dispostos de tal maneira que constatamos neles uma uniformidade : de um evento segue-se outro evento. Mas como justificar essa uniformidade, se a natureza oculta a sua VERDADEIRA face? Diz Hume:

"Mas, apesar dessa ignorância dos poderes e princípios naturais, ao ver qualidades sensíveis semelhantes sempre presumimos que elas possuam poderes secretos semelhantes e esperamos que daí decorram efeitos análogos aos que já experimentamos." (IEH, paragrafo 29)

Essa uniformidade da natureza, isto é, a conjunção constante de eventos observada por nós, implica necessariamente na experiência. Dessa implicação resulta outro problema mais grave: o problema da indução. A experiência, segundo Hume, nos dá informações diretas e certas sobre a natureza EM UM PERÍODO PRECISO DE TEMPO. Ora, se as coisas, os objetos da natureza, existem em tempos diferentes, logo, eles deveriam ser distinguiveis. As experiências deveriam ser distintas. Mas nós supomos uma identidade que atravessa todos os segmentos de tempo. Se assim não fizessemos, a OBJETIVIDADE estaria ameaçada. Está colocado o ceticismo. Diz Hume:

"Quanto à experiência passada, pode-se admitir que fornece informações DIRETAS e CERTAS apenas sobre aqueles objetos precisos e aquele período preciso de tempo de que teve conhecimento: mas por estender essa experiência aos tempos futuros e a outros objetos que, tanto quanto nos é dado saber, podem ser semelhantes apenas na aparência? Essa é a questão fundamental em que desejo insistir." (IEH, paragrafo 29)

Portanto, qual é a impressão que corresponde a idéia de causalidade (uniformidade da natureza)? Segundo Hume, é pelo COSTUME ou HÁBITO que somos levados a esperar que a natureza nos forneça experiências semelhantes. A natureza (fundamento) da experiência é o hábito ou o costume que se sedimenta em nós pela REPETIÇÃO. Repetidas vezes observamos determinado evento ou objeto da natureza. Constatamos uma uniformidade que extendemos para tempos futuros. Aquilo que observamos em um determinado período de tempo, generalizamos para todos períodos de tempo, sem percebermos que se há tempos diferentes, os eventos ou objetos da natureza deveriam se manifestar de maneira diferente.

ÉTICA E A EVANGELIZAÇÃO NO MUNDO HOJE

Qual conceito de Ética? Que se entende por Evangelização? Que é o mundo? Que significa o termo contemporaneidade? Estas são indagações que o homem em todo período da história da humanidade vem tentando responder a si mesmos. Sabemos que o homem, de hoje, não é melhor nem pior do que o de ontem, é essencialmente o mesmo, posto que os valores morais que orientam são os mesmos, porém, parte dos homens, dito moderno, desconhecem de fato, o que denominamos por conjunto de princípios morais para a criação de um caráter virtuoso e formação de hábitos de onde resulte, naturalmente, um procedimento honrado e íntegro, a rigor, desconhecem a ciência da conduta, a ética.

O mesmo pode-se dizer, grosso modo, das sociedades que conheceram a ascendência e decadência conforme sejam melhores ou piores os valores absolutos que o norteiam, pois este mesmo homem que desconhece a ciência da conduta é o mesmo que está implícito na sociedade e a norteia, que por ora leva-a ascendência e a decadência.

Ética do grego ethos, que significa modo de ser, caráter, comportamento, enfim, a ciência da conduta e, que indica o melhor modo de viver no cotidiano e na sociedade, reflete sobre o bem e o mal, o que é certo ou errado, e, é a exemplo deste modo que o cristão deve proceder no itinerário da evangelização no mundo de hoje, pois a ética contemporânea, em masa, tornará-se a valorização da autonomia do sujeito, onde a moral leva à busca de valores subjetivos e ao reconhecimento do valor das paixões, o que acarreta o individualismo exacerbado e a anarquia dos valores. Resulta ainda na descoberta de várias situações particulares com suas respectivas morais: dos jovens, de grupos religiosos, de movimentos ecológicos, de homossexuais, de feministas, e assim por diante. Para se evangelizar é preciso, ir ao cristão, tomar conhecimento deste engodo de malefícios contemporâneos e ir ao encontro do outro com firme proposito de mostrar o que, como e porque o mundo hoje age tal e qual, a rigor, numa perca de comum-unidade, relativismo, hedonismo, individualismo etc.

No itinerário da história da igreja, muitos foram os desafios encontrados e superados durante vários períodos do árduo trabalho de evangelização, dentre os quais, saltam aos olhos o problema da ética, seja moral, política, ou até, uma ética sem rosto como a do presente período da história etc., que, por sua vez, vem pregar o oposto daquilo que tem por finalidade fazer comum-união entre os povos, sociedades, pequenas e grandes comunidades. Descartando o atual “conceito de mundo contemporâneo” que pode ser classificado como um aglomerado de bestialidades e ilusões desacerbadas, e uma ética sem limites, colocamos à frente desta empresa a tomada de consciência e a reponsabilidade de nossos atos, a ciência da conduta, em suma a ética, que se funda na moral e noção de dever.

A RELAÇÃO DA FILOSOFIA ANALÍTICA COM A TEOLOGIA MORAL

É sabido que uma das formas, pelas quais, melhor compreendemos um tratado teológico ou filosófico, bem como, uma obra biográfica (e, outra qualquer), ou ainda, até mesmo uma disciplina é de suma importância termos claro o contexto histórico e cultural em que foram desenvolvidas. De igual modo notamos que tal fato, segundo o professor australiano, Kennedy, se faz presente na descrição da inter-relação entre a filosofia analítica e a teologia moral.

Não só é primordial termos claro o período cultural em que tal conteúdo se desenvolve, como também é crucial estarmos cônscios, das dificuldades encontradas. Tanto a filosofia analítica quanto a teologia moral, igualmente, tornam difícil a tarefa de descrever sua inter-relação, não só pelo seu contexto histórico, mas também pelos desafios encontrados no processo de aprimoramento, aceitação e consideração como fonte de renovação e contribuição de uma para com a outra, no caso; da filosofia analítica para com a teologia moral, pois, trata de uma serie de influências reciprocas, entre ambas as disciplinas, sem, contudo esquecermos a distinção entre filosofia anglo-saxã e filosofia Continental, isto é, houve uma diferença e uma independência muito grande entre filosofia analítica e teologia moral, a rigor, entre a filosofia considerada na Inglaterra como filosofia linguística e os teólogos moralistas. Decerto, atualmente podemos dizer que a filosofia analítica foi e é considerada uma fonte de renovação para a teologia moral, de modo não mais diferir com quão largas medidas uma disciplina da outra, dando se em contribuição mútua, e assim, possibilitando o reconhecimento da filosofia analítica como um parceiro de dialogo para a teologia moral.

Por exemplo, [...] Desde a Reforma, a teologia moral floresceu principalmente em países latinos e germânicos, onde predominava a perspectiva filosófica continental (OLIVEIRA, 2009. p. 119), assim, nestes países atualmente a renovação da teologia moral deu-se, sobretudo a partir do dialogo com correntes filosóficas, entre elas; a fenomenologia, o existencialismo e o personalismo, de modo que esta última (o personalismo) é considerada uma segunda tendência no pensamento anglo-saxão e apresenta em seu traço mais geral a insistência na realidade e no valor da pessoa e sua tentativa de interpretar a realidade. Ao passo que a filosofia analítica, é comumente entendida como uma filosofia tipicamente anglo-saxão, o que a torna diferente e oposta, por assim dizer, à tradição continental, á teologia moral.

Podemos entender o proposito principal da filosofia analítica, como sendo, de todo terapêutico, isto é, tem como meta curar nossos pensamentos, expressos na lógica e na linguagem, dos erros que normalmente nos afligem. Também podemos compreender segundo Kennedy, que um encontro com este tipo de análise lógico-filosófico é frequentemente uma experiência purificadora, que por sua vez manifesta e faz evaporar os erros de nossos pressupostos categoriais e de nossas premissas básicas. Nesta questão e com relação à filosofia Inglesa, propriamente, na Inglaterra acabou predominando a crença de que a maioria dos problemas filosóficos e até mesmo os enunciados ou statements não tem sentido e decorrem simplesmente das imperfeições da linguagem, motivo pelo qual se deve proceder a uma clarificação das questões mediante a, “analise linguística”, e essa clarificação foi feita pela filosofia, porém o pensamento inglês atual, sobretudo em Oxford, afirma que a filosofia se reduz somente a isso.

Oliveira faz eco às palavras de Kennedy, quando retrata acerca da questão da relação e/ou, parceiro de dialogo e ao mesmo tempo da separação entre as duas tradições de pensamento, anglo saxão e continental, que por sua vez, podem ser “simbolizados pelas trinta milhas de mar que dividem a Inglaterra do continente europeu. Contudo o autor destaca que a filosofia analítica, até há pouco tempo não era considerada uma fonte de renovação para a teologia moral, senão que a situação de vez em vez fora mudando com a entrada da Grã-Bretanha na união europeia. Decerto que hoje a filosofia analítica tronara-se um prato muito requisitado no menu intelectual europeu. Isso possibilitou o reconhecimento da filosofia analítica como um parceiro de dialogo para a teologia moral. Podemos notar que entre as dificuldades encontradas na relação entre a filosofia analítica e a teologia moral, a maior é aquela a qual em sua relação tardou o desenvolvimento entre ambas as disciplinas, a saber, por causa do problema da condição dos católicos na Inglaterra, pois, estes estavam passando por um período de perseguição, terminando somente com a emancipação católica por volta de 1829.

O encontro entre ambas às disciplinas pode ser descrito em quatro fases, nas quais temos;

1º Um ponto de inflexão na história da filosofia; Deu-se, sobretudo por meio de leigos, convertidos à fé católica, que viam sua vocação na pesquisa filosófica dentro de universidades inglesas e através de suas obras adentraram a filosofia analítica no pensamento católico. Segundo Kennedy, as pessoas que tiveram um papel fundamental nesta ruptura foram Peter Geach e Elizabeth Anscombe, que estavam em contato direto com os principais filósofos, particularmente com L. Wittgenstein. Eles eram conhecedores extremamente competentes tanto da tradição aristotélico-tomista quanto das tecnicidades da analise lógica, fazendo assim a ponte entre a filosofia analítica e a teologia moral. O Cardeal Cahal B. Daly relembrou, no encontro anual em Spode House, como eles se esforçaram para encontrar razões sólidas para suas crenças, demonstraram que existe um modo católico de fazer filosofia, que é inteiramente compatível com as leis da razão, com as normas da filosofia e com as exigências de rigor da lógica e que é, de forma descompromissada, leal ás teses da revelação divina e aos ensinamentos da Igreja Católica. Elizabeth e Peter demonstraram, em suma, que a ortodoxia católica tanto é filosoficamente respeitável quanto é parte fundamental do humanismo europeu integral.

2º A guerra cultural entre a filosofia analítica e a teologia moral; Foi Erich D’Arcy, membro do circulo em torno de Elizabeth e Peter, quem levou a análise filosófica em confronto direto com a teologia moral, o mesmo viera depois a tornar-se arcebispo de Hobart. Ele reconheceu, segundo nos diz Kennedy, que os primeiros princípios da lei natural tais como expostos por Santo Tomás não poderiam atuar como a premissa maior de um silogismo. Depois concluiu que estes princípios emergem da reflexão sobre a experiência, mas acrescenta que a relação logica entre eles e as normas individuais não foi suficientemente explicitada pela tradição. D’Arcy tornou claro também o profundo senso crítico da filosofia analítica em relação a algumas linhas principais da renovação da teologia moral experimentada após o Vaticano II. “A renovação da teologia moral ocorreu principalmente nos termos predominantes na filosofia de origem franco-germânica, tais como as correntes de pensamento que derivam de Kant, Hegel e Kierkegaard até a fenomenologia, o existencialismo e depois o estruturalismo” (OLIVEIRA, 2009. p. 124).

3º Tentativas de aproximação e assimilação; Este é o período em que o conhecimento da filosofia analítica tornou-se difundido entre os teólogos moralistas. O efeito dessa nova mentalidade pode ser percebido na construção de teorias entre as duas esferas (filosofia analítica e teologia moral) de saber e, também no conhecimento das objeções que existem de parte a parte. Mais adiante, as considerações feitas por Alasdair MacIntyre contribuíram para que os teólogos moralistas descobrissem que a contribuição cientifica da filosofia analítica reestruturaria sua disciplina. Segundo Kennedy, Bruno Schülher, foi quem introduziu a terminologia analítica na formação geral dos teólogos moralistas a nível mundial. Ele retomou a distinção de C. D. Broad, entre ética deontológica e ética teleológica¹ e aplicou-a aos modos de tratamento da questão nos manuais de teologia moral. Scülher afirmava que na casuística alguém descobre que uma norma tida como absoluta, que não permite nenhuma exceção, apresenta de fato exceções quando aplicada em determinadas situações ou quando determinadas situações consequências se tornam evidentes (OLIVEIRA, 2009. p. 127), a disjunção entre deontologia-teleologia estabeleceu o ponto essencial de referência para o debate sobre a fundamentação e justificação de normas morais.

Por fim a (4º) quarta fase; A emergência da doutrina do realismo moral como desafio atual para a teologia moral; Não há dúvidas de que a filosofia analítica provocou uma revitalização vigorosa nas discussões sobre o método e a forma da teologia moral no mundo anglo-saxão, pode se dizer que a evolução da filosofia analítica determinou novas perspectivas no desenvolvimento atual da teologia moral.

Enfim, o autor, Kennedy, buscou explicitar neste artigo a relação entre a filosofia analítica e a teologia moral, insistiu em deixar clara a questão da inflexão e da tentativa de aproximação entre ambas às disciplinas. Apresentou também ainda que sinteticamente, algumas das dificuldades que tais disciplinas encontraram ao se tornarem parceiras.

Estudo referente à obra: KENNEDY, Terence. A relação da filosofia analítica com a teologia moral. In: OLIVEIRA, Manfredo (org). Correntes Fundamentais da Ética Contemporânea. 4º ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2009.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O PENSAMENTO MODERNO E A IDÉIA DE MODERNIDADE

 Não tenho como objetivo tratar neste estudo minuciosamente sobre toda a história da época moderna enumerando datas, citando nomes e lugares, senão que em síntese retratar somente sobre alguns pontos, sejam eles; o que se entende pelos termos modernidade, humanismo, reforma protestante, e por fim revolução científica.
  
Pode-se bem compreender que o conceito de modernidade está realmente relacionado para nós àquilo que se refere à ideia de "novo", é dizer, àquilo que rompe com a tradição. Trata-se, portanto, de um conceito associado quase sempre a um sentido positivo, por assim dizer, de mudança, transformação e progresso.

Contudo, não é de nos esquecermos dos progressos e/ou feitos a priori em diferentes épocas, sob a qual impulsiona e dá base ao modernismo em suas descobertas, bem como, as grandes transformações no mundo europeu dos séculos XV-XVI como a descoberta do novo mundo (Américas); surgimento de importantes núcleos urbanos em algumas regiões, principalmente na Itália (Florença); desenvolvimento de atividade econômica, sobretudo mercantil e industrial, segundo nos diz o professor titular da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e presidente da North American Association for the History of the Languages Sciences (2010), Danilo Marcondes de Souza Filho.

Vale trazer à liça a questão do humanismo, sobre o qual é de suma importância comentar nesta etapa da história, a já citada "idade moderna”, isto é, a ideia de modernidade. Poder-se-á afirmar que o humanismo é a filosofia moral que coloca os humanos como primordiais, numa escala de importância. Igualmente entendida como uma perspectiva comum a uma grande variedade de posturas éticas que atribuem a maior importância à dignidade, aspirações e capacidades humanas, particularmente a racionalidade. Numa palavra, o humanismo eleva o ser humano, pão no homem a capacidade de realizar todas as coisas, sendo, a rigor, o senhor delas.

Embora a palavra possa apresentar diversos sentidos, o significado filosófico essencial destaca-se por contraposição ao apelo ao sobrenatural ou a uma autoridade superior. Desde o século XVIII-XIX, o humanismo tem sido associado ao anticlericalismo herdado dos filósofos iluministas do século XVIII.

Disto, por bem dizer, lembrar-nos-emos, a priori da ideia humanista renascentista que fora difundida sobre muitos aspectos no contexto do pensamento moderno, segundo suas influências e, implicações, bem como sua contribuição para com a seguinte época.

Sem, contudo, nos esquecermos da questão do antropocentrismo, que era a ideia de o homem ser o centro do pensamento filosófico, ao contrário do teocentrismo na qual a ideia de Deus está enraizada, no centro do pensamento filosófico. Ouso ainda dizer que, o antropocentrismo de forma direta ou indireta, como bem quiser entender surgiu a partir do renascimento cultural. Para melhor entendermos esta questão, vale ressaltar em síntese que o humanismo rompe assim com a visão teocêntrica e com a concepção filosófica co-teológica medieval, valorizando o interesse pelo homem considerado em si mesmo; por outro lado, significa também uma ruptura com a importância dada as ciências naturais após a redescoberta de Aristóteles ao final do século XII.

Ademais, deixar de retratar não poderia neste estudo sobre a reforma protestante, a qual teve por assim relatar, alicerçadas suas bases na época moderna, a lembrar. Na noite do dia 31 de outubro de 1517, precisamente em Wittenberg, Alemanha, Martinho Lutero nascido em 1483 e falecido em 1546, fixou as suas “noventa e Cinco Teses” em oposição às indulgências. Disto, deu origem a um dos maiores movimentos de volta à Bíblia, da história da igreja, denominado “Reforma Protestante” e que compreende o período entre os anos de 1517 a 1648.

A reforma protestante foi um movimento reformista cristão iniciado no século XVI, como já dito, por Martinho Lutero, que protestou contra diversos pontos da doutrina da igreja católica, propondo uma reforma no catolicismo. Os princípios fundamentais da reforma protestante são conhecidos como os Cinco Solas. Os cincos solas são princípios fundamentais da reforma protestante, sendo; Sola-fides (somente a fé); Sola-scriptura (somente a escritura); Solus- Christus (somente Cristo); Sola-gratia (somente a graça); e, Sola-Deo-gloria (glória somente a Deus).

É primordial para entendermos este contexto da reforma protestante, tendo em vista que Lutero foi apoiado por vários religiosos e governantes, sobretudo europeus e não somente sozinho, provocando uma revolução religiosa, iniciada na Alemanha, e estendendo-se pela Suíça, França, Reinos Unido, Escandinávia e algumas partes do Leste Europeu, principalmente os Países Bálticos e a Hungria.

As heranças deixadas pela reforma protestante estão no direito de cada crente ler e interpretar a Sagrada Escritura e na busca pelas formas e padrões bíblicos, principalmente na tradição reformada suíça liderada por Ulrich Zwínglio (1484-1531) em Zurique e João Calvino (1509-1564) em Genebra.

Com base no que se refere à revolução cientifica, poder não iria deixar de comentar sobre esta demasiada questão, que fora muito difundida/discutida mediante a época moderna, a qual teve seu ponto de partida como se pode ler no livro (A iniciação da História da filosofia, de Danilo Marcondes. p. 149-54). E, pode-se considerar segundo o professor Marcondes, já citado, que verdadeiramente o interesse pelas ciências naturais se inicia com a reintrodução na Europa ocidental, a partir do final do século XII, da obra de Aristóteles e de seus intérpretes árabes.

Embora a revolução científica moderna inspire-se muito no pensamento filosófico do filósofo Platão, sobretudo pela valorização da matemática na explicação do cosmo, e nos pitagóricos, que já teriam antecipado o modelo heliocêntrico por Copérnico, contudo, sendo o filósofo Aristóteles o responsável pela ênfase na pesquisa experimental e na importância da investigação da natureza.

Iniciando com Nicolau de Cusa e entre Copérnico e Newton surgem diversas individualidades que tentaram introduzir novos conceitos contrários ao saber tradicional, dentre tais se destacaram Kepler, Tycho Brache, Giordanno Bruno e Galileu, este último como sendo o primeiro grande teórico da nova ciência, defensor da teoria copernicana, sendo também o primeiro a organizar as leis do movimento de um matemático, introduzindo o conceito de relatividade, a saber.

A revolução só verá seu fim em 1687, quando Isaac Newton publicar a obra Philosophiae Naturalis Principia Mathematica. Esta obra é uma espécie de resumo e conclusão do pensamento de Copérnico a Newton. Assim, se tornou no seu tempo um modelo de ciência e do conhecimento, sendo considerada uma descrição do universo verdadeiro, que apenas começa a ser refutada a partir do século XIX, até, finalmente a chegada de Einstein.

Por fim, a época moderna se, se apresenta carregada de ambiguidades, ao mesmo tempo em que oferece segurança oferece também perigo, seja em suas descobertas, posições e colocações, a rigor, imposições. O pensamento moderno talvez seja mais fácil de ser compreendido pelo fato de estarmos mais próximo dele do que do antigo e do medieval, e por sermos ainda hoje, de certo modo, herdeiros dessa tradição. Por outro lado, às vezes é mais difícil tomarmos consciência, de fato e, explicitarmos as características mais fundamentais daquilo que nos é mais familiar, exatamente porque nos acostumamos à aceita-lo como tal. A etimologia de moderno parece ser o adverbio latino “modo”, que significa “agora mesmo”, “neste instante”, “no momento”, portanto designando o que nos é contemporâneo, e é este o sentido que moderno capta, opondo-se ao que é anterior, e traçando, por assim dizer, uma linha, ou divisão entre dois períodos.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

PLATÃO "A REPÚBLICA"

          Platão (428/427-347.a.c.) é o fundador da metafísica Ocidental. Nasceu em Atenas, seu verdadeiro nome era ARISTÓCLES. Platão é apelido que derivou como referem alguns, de seu vigor físico e da amplitude de seu estilo. Foi inicialmente discípulo de Crátilo, seguidor de Heráclito. Posteriormente foi discípulo de Sócrates. O encontro de Platão com Sócrates se deu provavelmente quando completava aproximadamente vinte anos.

          O filosofo Platão, na obra A República leciona que a realidade humana é a composição do domínio das coisas sensíveis e do domínio das idéias. Para ele, a humanidade, ou grande parte da humanidade, vive na infelicidade da ignorância, de forma fantasiosa, ilusória, própria das coisas sensíveis, mutáveis. Esta é a realidade desnecessária, individualista, e, por isso, não é objeto de conhecimento.

         Também o mundo das idéias, percebido pela razão, está acima do sensível (dominado pela subjetividade) que só existe na medida em que participa do mundo da sensibilidade, sendo apenas sombras deste. No entanto, mais tarde seria criticado por Aristóteles que diria que ele não havia questionado o que é participar.

          Em A República Platão mostra o que, para ele, não é justo. Pretende, com esta filosofia, fazer o leitor compreender que tanto não é justo dar a cada um o que lhe é devido, ao amigo o que não lhe é adequado e da mesma forma prejudicar o inimigo ou mesmo salientar apenas o interesse do mais forte. Assim, para mostrar a importância do pensamento coletivo o autor mostra que há elementos que regem o individuo em meio a uma coletividade não dispersa, mas conjugada em normas ou Leis que visam o bem comum e a ordem social.

          Com o propósito de levar à reflexão, ele diz que, pelo fato de o homem não ser auto-suficiente, ele precisa manter uma relação de reciprocidade e, no caso do Estado justo, ao ser humano impõe-se a plena responsabilidade pela justiça, onde os homens justos vivem em confiança recíproca e eles são reciprocamente dependentes. Agindo desta forma, não há oposição entre indivíduos e Estado, eles se completam e devem auxilio mútuos, pois tudo gravita em torno da justiça que, inclusive responde pela ordem social e da alma.

          Desta forma, a justiça diz respeito à própria vida da alma. Vê-se, então, que o que pretende Platão é conhecer e formar o Estado perfeito para poder conhecer e formar o homem perfeito. Mostra-o nesta obra a forma de governo da polis que é formada por várias composições como algumas constituições que buscam atender o interesse coletivo. As idéias desenvolvidas no livro encontram-se fundamentadas no pensamento socrático de que pelo fato do homem não ser auto-suficiente, ele precisa manter uma relação de reciprocidade com o Estado justo.

          Para Sócrates ao ser humano impõe-se a plena responsabilidade pela justiça, pois os homens justos vivem em confiança recíproca e eles são reciprocamente dependentes. Desta forma, não há combate entre indivíduos e Estado, eles se completam e devem auxilio mútuo. E ai tudo gira em torno da justiça.

          Dessa forma, ao utilizar o mito da caverna como exemplificação o filósofo Platão mostra que a pessoa ao sair da “caverna” da própria vida, se libertará da escravidão de seus sentidos, da obscuridade do mundo da matéria e se tornará novo, à espreita da verdade e à espera de viver de forma desprendida do seu circulo. São recíprocos os elementos que levam o governo à reflexão do que na polis há necessidade de um governante que despoja de si em prol do bem comum. Sendo assim, o governo trata de uma só espécie de constituição, embora tendo vários governantes em diversas áreas, que em nada abalarão as Leis fundamentais da cidade.

          Finalmente, A República, livro que se direciona a todos que pretendem desvendar os próprios mistérios, leva à compreensão da verdade acerca do descobrimento da idéia do bem coletivo.

                                 
                                                             Referência  Bibliográfica

ARISTÓCLES, Platão. A República Trad. J.GUINSBURG. Difusão Européia do livro, São Paulo e Editions Garnier Frères, Paris.Editora Vozes 1973.

A CONSTITUIÇÃO DO HOMEM ENQUANTO SUJEITO.

          O presente artigo traz como objetivo apresentar algumas características e a importância do processo de formação sobre a constituição do homem enquanto sujeito numa visão filosófica referente aos filósofos Platão, Agostinho, e, René Descartes.

          Fulminada pelo castigo, que a sua falta lhe atraiu, a alma tomba das alturas e passa a habitar um corpo ao qual se liga por uma união meramente acidental. Esta alma tem a semelhança com o que é divino, imortal, uniforme etc.

          A alma é o princípio vivificador do homem, e unido ao corpo formam uma nova substancia (o individuo), para animá-lo e vivificá-lo. Desta união, a natureza corporal se funde por intermédio da natureza da alma com a natureza suprema divina. Esta substância (alma) única confere ao corpo a vida, a beleza tanto interior quanto exterior e toda a sua organização. A alma está toda inteira ao corpo e, toda inteira em cada uma de suas partes, totalmente presente em cada uma das partes do corpo, a alma pode fazer valer em todas elas a totalidade de sua força. Torna-se a alma o elo entre as idéias divinas e o corpo.

          A alma, graças à sua natureza espiritual, ela se abre para aquelas idéias espirituais. Já o corpo, devido à sua extensão espacial é incapaz de uma participação direta nas idéias, estando submetido ao domínio e governo da alma, ou seja, depois que o corpo e a alma se fundirem no mesmo ser, ao corpo cumpre por natureza sujeitar-se e ser governado, e a alma dirigir e dominar(Fedron,79 e 80a). Entretanto, a alma está sujeita às necessidades do corpo, este opõe mil obstáculos, pela necessidade que temos, além disso, o corpo suscita em nós amores, cobiças, receios, imaginações de toda a sorte e tolices inúmeras.

          A psicanálise lacaniana pauta em seu curso a constituição do sujeito e os seus fracassos no processo de socialização. Portanto, recorreremos a Justo (2004) doutor em psicologia, para apresentar este contexto Justo faz uma correlação entre a psicanálise lacaniana desde suas origens à contextualização da cultura e da educação do sujeito. E, posteriores, ele apresenta quatro tópicos que explicam o surgimento do sujeito:

         O primeiro versa sobre as constituições do “EU” na interação com o outro.

        O segundo trata sobre heranças culturais que herdamos dos genitores. O terceiro apresenta um conceito sobre as fundações referenciais da gênese do sujeito. O quarto conclui a agregação dos conceitos tratados previamente à educação, no intuito de apresentar uma metodologia adequada para o professor como mediador do nascimento da autonomia na pessoa (FERREIRA, Adeir).

          Da união entre alma e corpo, surge o homem (sujeito), este se entronizará as implicações sociais, econômicas, filosóficas, políticas, biológicas, culturais e escolares. Conquanto, a relação interpessoal é a dimensão que mais lhe propiciará maior desenvolvimento na do seu ser, isto é, possibilitará demasiado entendimento de ser realmente o que é.

          A estrutura de formação da criança enquanto sujeito a partir da teoria de Lacan, mostra que as heranças hereditárias funcionam com matriz de comportamento na sociedade e, sobretudo na escola. No que se refere ao fracasso do sujeito,pode-se afirmar que, o problema do fracasso tem sua raiz nas relações primárias (familiares), ainda neste estágio o sujeito se encontra em meio à formação de sua personalidade, estando em contato direto com idéias e juízes alheios, em que muitas vezes acabam adotando para si, e conseqüentemente ocultando os próprios. Porém, nesta fase é mister que haja um equilíbrio em relação às influências.

          Contudo, para realizar sua vivência, o sujeito precisa do outro como uma espécie de bula para lhe passar culturalmente os hábitos necessários, pois ele não herda biologicamente toda estrutura da vida, por isso o sujeito é criativo, porque nada está pronto. Somente mais tarde, começará por se autoquestionar, e, em meio a tantos, se sente refutado, confuso e passará por crises, indignações, desconhecimento do self, dúvidas etc.

          Encontrando uma solução somente a partir da razão. O sujeito é livre, em decorrência da razão e do pensar, a condição do conhecer carece de provas inferenciais ou concretas, a experiência e a observação poderão dar a cartada final, quando se há uma dupla verdade, mas é apenas um auxilio da razão. Na qual a substancia pensante é a própria estrutura abstrata do cogito (razão) com as incertezas, as certezas e o dualismo. E a substância extensa é o seu próprio corpo com suas leis próprias, os sentidos, a estrutura biológica etc.

           Chegado à fase adulta, o sujeito deve ser consciente de sua ampla e dicotomia estrutura para obter maior êxito em suas relações de conhecimento. Diferenciado entre a contemplação e as exigências cotidianas da vida, o sujeito, para a verdade exige a evidencia e a distinção que se, alcançadas, nos dão o juízo.

           Se, se for verdade que é preciso pensar segunda a verdade e viver segundo a razão, para o sujeito é mais triste perder a razão do que a vida, já que neste caso se perderia a razão da vida. Assim o eixo da reflexão e da ação se desloca do ser para o pensamento, de Deus e do mundo para o homem, da revelação para a razão. Reconhecer-se-á o homem, que o erro é um produto seu, e a idéia não é Deus, mas, o efeito de uma causa proporcional, pois Deus é quem coloca a idéia dentro do ser (do homem).

          Em relação ao sujeito, pressupõe-se que a morte seja o resultado das decadentes relações interpessoais, da qual mau êxito (fracasso) é apenas uma evidência. Adestarte, dir-se-á que a alma é o que anima o corpo, lhe comunica a vida e o movimento. A alma é o que tem mais semelhança com o que é divino e mais se parece ao que mantêm sempre de igual modo a sua identidade. Logo, a alma deve separar-se do corpo para alcançar a verdade, ou seja, por mais alto que sejam os direitos da alma sobre o corpo, ela não pode designar-se a viver com ele, são incalculáveis os danos que sofre dos atrativos e concupiscência da matéria.

          Enquanto possuirmos o corpo e a alma estiver mergulhado nesta corrupção, impossível nos é alcançar o que desejamos, isto é, a verdade. Ora, essa verdade (conhecimento) é alcançada não por meio dos sentidos, antes se afastando deles. O espírito possui, portanto uma vida própria que se desenvolve sozinha, independente do corpo. Ao cumprir sua busca a alma lança-se em direção àquilo que é puro, eterno, imortal e sempre igual a si mesmo, e sentindo a própria afinidade a isso, ali permanece por todo tempo que lhe for permitido, encontrando paz no seu vaguear. E posta em contato com tal realidade permanece ela mesma constante e imutável (Fédon 27).

          Enquanto espírito, a alma é feita para a idéia, dela se alimenta e por ela vive a vida do espírito. Mas a idéia é eterna, imutável. Conseqüentemente, a alma, que é afim a ela mesma e vive dela, é também eterna e imutável. Com efeito, se o que se encontra num sujeito é eternamente duradouro, é lícito que este seja da mesma forma eternamente duradouro. Mas, visto que, cada ciência reside sempre num sujeito, é preciso que a alma dure para sempre. Dado que a ciência é verdade, e a verdade dura para sempre, a alma também dura para sempre, nem se poder nunca dizer que ela morre (Agostinho, Solilóquios II,13).

EDUCAÇÃO E ESCOLA

          O presente texto pretende mostrar quão fundamental são as instituições sociais na vida do ser humano. Nas quais se destacam A Educação e a Escola, como fatores primordiais para a formação da personalidade do homem, isto é, a educação é um processo progressivo, em que o indivíduo vai se educando, ao organizar suas experiências e tendo condições de perceber e interpretar os estímulos externos atuantes à sua volta. Devido ao próprio fato de que diversas tendências pedagógicas são abordadas nas escolas na época presente, há certa diversidade em apresentação, bem como na transliteração de alguns termos comuns. Para algo mais, chamo à atenção.

          Neste texto procurei cercar minha reflexão dos maiores cuidados, não apenas para que fosse verdadeiro, mas também para que não se apresentasse de forma incômoda e árida ao jugo dos homens, atualmente tão atulhados de múltiplas formas de fantasia. O enfoque à tendência pedagógica aqui retratada não é referente à outra já existente na sociedade, é antes uma reflexão ao modo de como se pode aprimorar uma forma pedagógica na prática do ensino escolar. Assim não opto por nenhuma das tendências pedagógicas, contudo aprecio o valor de cada uma, e me oriento a partir do pressuposto problema apresentado na forma de ensino.

          A escola deve ter um regulamento com normas fixas, direcionadas aos alunos, como horário de estudo, horário de refeição, freqüência obrigatória às aulas, avaliação de aproveitamento.

          O ser humano é “um ser de necessidade” desde o seu nascimento. Muito mais do que os outros animais, que encontram em si mesmos ou na natureza os recursos para sobreviverem. Ele difere do animal à medida que necessita de outros seres humanos para conseguir o objeto de suas necessidades. O homem sempre viveu em grupos, inicialmente na família, que pode ser natural ou adotiva, e posteriormente sentiu necessidade de ampliar as suas relações, surgindo assim outros grupos sociais, como a escola, a igreja, o estado.

          O primeiro grupo social a que um indivíduo pertence é a família. Aristóteles dizia ser a família uma comunidade de todos os dias, “com a incumbência de atender às necessidades primárias e permanentes do lar”, e Cícero definiu família como “princípio da cidade e origem ou semente do Estado”.

          A nossa sociedade é formada por famílias monogâmicas. No Brasil, a Lei só permite um novo casamento após o termino do casamento anterior. A família tem papel importante na formação cultural, ética, social e religiosa do ser humano.

          Sendo a igreja uma instituição religiosa, apresenta características básicas que são comuns a todas as religiões. A religião é um fato social e sempre esteve presente na história da humanidade. Seu objetivo principal é a promoção dos valores espirituais.

          Educação é o processo social pelo qual o indivíduo aprende as coisas necessárias para se ajustar aos grupos e a sociedade em que vive e por objetivo transmitir o seu patrimônio cultural. A criança aprende as regras de comportamento e assimila conceitos por imitação dos adultos que fazem parte do grupo em que nasceu, pois ao nascer é um ser social e a educação a torna um ser social. Durante sua vida o indivíduo vai se educando, ao organizar suas experiências e tendo condições de perceber e interpretar os estímulos externos à sua volta.

          A escola serve a sociedade ajudando-a a socializar os indivíduos, para que eles absorvam valores, crenças e normas da sociedade. Desempenha algumas funções especificas: dar ao aluno instrumentos que o habilitem a aprender; transmitir conhecimentos acumulados, de geração para geração; ser selecionadora social, pois os alunos com melhores aptidões, e conseqüentemente melhores aproveitamento, é que irão satisfazer os requisitos da escolaridade, e assim muitos dos que não conseguirem irão gradativamente perdendo o interesse, gerando desistências.

          Para que a escola possa atingir a sua meta, precisa ter profissionais especializados para transmitir os conteúdos programados de acordo com os programas do ensino. Pois as matérias de estudo devem visar à preparação do aluno para a vida. Cabem aos docentes utilizarem métodos, técnicas e materiais que facilitem a aprendizagem do discente.

          Em tese, o aluno analisando e interpretando a realidade que o cerca, em conjunto com seus professores e colegas, seguramente terá uma formação com espírito crítico e conseguirá uma inserção consciente na sociedade.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

RESPOSTA À PERGUNTA : QUE É “ESCLARECIMENTO”? (AUFKLÄRUNG)

       Este artigo tem como objetivo apresentar em síntese algumas características sobre o que se entende por Aufklärung, e o que diz um dos pensadores mais influêntes dos que se destacaram na época moderna,  sendo este, o filosofo Immanuel Kant ou Emanuel Kant que nasceu em Königsberg, cidade da Prússia a 22 de Abril de 1724 e viera a falecer na mesma cidade Königsberg, no dia  12 de Fevereiro de 1804, foi ele um filósofo alemão, geralmente considerado como o último grande filósofo dos princípios da era moderna, e indiscutivelmente um dos seus pensadores mais influentes.
   
     Foi Kant quem realizou na filosofia uma revolução, que ele próprio equiparou, em virtude de sua radicalidade, à revolução realizada por Copérnico na astronomia. Considerado um dos principais pensadores iluministas, desenvolveu alguns conceitos de razão, liberdade, disciplina e autonomia do indivíduo. O Iluminismo propõe uma nova forma de apreensão da realidade, a partir da razão e autonomia do indivíduo.
     
      No tocante ao seu texto clássico, Resposta à pergunta: “Que é Esclarecimento”? (Aufklärung). Inicia por definir o que é a Menoridade, diz ele: “é a incapacidade do homem em fazer uso do seu entendimento sem a direção de outro indivíduo”. O homem é culpado de estar neste estado de menoridade, escolhe ficar sob a tutela de outros por covardia e preguiça.
    
      Esclarecimento “é à saída do homem de sua menoridade”. Este processo pode ser difícil, pois muitos tutores amedrontam seu público para que este não tente sair da menoridade, mas se for dada a verdadeira liberdade é inevitável que um público se esclareça. Contudo, um público só muito lentamente pode chegar ao esclarecimento. Uma revolução até pode derrubar um poder opressor, porém nunca produzirá a verdadeira reforma do modo de pensar, condição precípua para o esclarecimento geral.
    
      Uso da Razão: uso público – “é aquele que qualquer homem, enquanto sábio, faz da sua razão diante do grande público do mundo letrado”. O esclarecimento só é possível se tiver liberdade de fazer uso público de sua razão em todas as questões.
   
      Uso privado – “é aquele que o sábio pode fazer de sua razão em certo cargo público ou função a ele confiada”. No exercício da função deve-se primeiramente obedecer, mas quando se depara com um público maior deve-se se expressar através de um uso público da razão, expondo suas ideias em seu próprio nome.
     
      É impossível que um grupo comprometa-se a um credo que exerça uma super tutela sobre cada um de seus membros e por meio dela sobre o povo, perpetuando esta tutela. “Uma época não pode se aliar e conjurar para colocar a seguinte em um estado em que se torna impossível para esta ampliar seus conhecimentos purificar-se dos erros e avançar mais no caminho do esclarecimento”. Isto seria um crime à natureza humana que consiste, por sua determinação original, no avanço.
   
    “Todos têm o direito de fazer publicamente, isto é, por meio de obras escritas, seus reparos a possíveis defeitos das instituições vigentes”. Estas permanecem intactas até que sejam analisadas e aceitas (ou não) as críticas. Um homem sem dúvida pode no que respeita à sua pessoa, e mesmo assim só por algum tempo, na parte que lhe incumbe adiar o esclarecimento. “Mas renunciar a ele, quer para si mesmo, quer ainda mais para sua descendência, significa ferir e calcar aos pés os sagrados direitos da humanidade”.
 
    “Vivemos agora em uma época esclarecida? (...) não, vivemos em uma época de esclarecimento”. Falta muito para que os homens possam fazer bom uso do seu entendimento sem serem dirigidos por outrem. O príncipe esclarecido. É aquele que considera como um dever não prescrever nada aos homens, deixando-os livres para utilizarem sua razão em todas as questões da consciência moral, libertando-o da menoridade.
  
    “Raciocinai tanto quanto quiserdes e sobre qualquer coisa que quiserdes; apenas obedecei!”. Para Kant, esta frase revela uma estranha e não esperada marcha das coisas humanas, que, para ele, quase tudo nela é um paradoxo. “Um grau maior de liberdade civil parece vantajoso para a liberdade de espírito do povo e, no entanto estabelece para ela limites intransponíveis; um grau menor daquela dá a esse espaço o ensejo de expandir-se tanto o quanto possa” (Immanuel Kant: Textos Seletos _ 2005).

terça-feira, 1 de junho de 2010

UM OLHA SOBRE A ICONOGRAFIA DE CLÁUDIO PASTRO

       Cláudio Pastro nasceu em São Paulo, em 1948. De sua família herdou uma fé firme, um espírito de ordem, de respeito, de harmonia, de garra e de amor pela verdade. Quanto à sua vocação, a dádiva e o carisma estão na raiz de sua história. Há um fio condutor único em sua vida, com pessoas, nomes e lugares que são protagonistas do espírito que ele mantém vivo.
  
    “Quem procura traços de supérflua beleza só encontrará sinais simples, mas densos de verdade cristã.” Assim, o artista Claudio Pastro define sua arte. Ele sempre abominou o subjetivismo e buscou nos mestres da arte helênica e nos “Padres da Igreja”, o princípio do belo, do bom e do verdadeiro. As figuras pintadas por ele jamais ficam isoladas e ele as contextualiza, colocando-as dentro de acontecimentos da história dos homens.
   
      Mediante sinais e símbolos, não de uma mitologia distante, mas da própria Sagrada Escritura, as imagens que são oriundas deste artista, nos revela a presença de um Deus que age em nosso tempo, de modo que a história dos homens seja também, a história de um Deus encarnado, de um Deus que salva. Por este motivo, as pinturas de Cláudio Pastro não podem ser apenas observadas e analisadas. Elas pedem de nós uma atitude de contemplação.
   
     Para este artista, a arte sacra não é o registro de um fato, mas antes, uma questão de verdade e de identidade da divindade, sinal da presença de Deus. Pastro, como todo artista, pede que não percamos a capacidade de nos maravilhar e, deste modo, não permaneçamos passivos robôs do dia a dia.
   
      A arte de Cláudio Pastro é objetiva, não por sua genialidade, mas porque vem da contemplação diária do Espírito, dentro da Igreja. Há uma sutil brasilidade em seus traços e cores, criando uma arte sacra tropical que considera as nossas raízes. Suas formas, suas cruzes e altares têm o frescor do novo, o “eterno novo”, desde a encarnação do verbo no seio de uma virgem. Para o próprio Cláudio, a arte é uma questão de verdade e de identidade.
   
     Em suma, todo o seu currículo indica-nos uma única e constante linha de trabalho que teve berço e, como que, guiado por uma mão forte, foi conduzido e se deixou conduzir com fidelidade à fé, à criação e à tradição. A imagem é palavra silenciosa e amante. Assim, Pastro transforma a linguagem da Sagrada Escritura em imagens de cores e linhas e as transforma em objeto de oração.